Ocupação Lydia Hortélio

Lydia

Ocupação Lydia Hortélio

Por Peo (Maria Amélia Pinho Pereira)

Nesse semestre foi inaugurada a Ocupação Lydia Hortélio no Centro Cultural Itaú em São Paulo, que estará aberta para visitação do dia 20 de julho a 8 de setembro de 2019. Compartilhamos nesta Ocupação do direito à Alegria e à Liberdade de caminharmos por este mundo encantado da Infância, onde a simplicidade, a singeleza dos gestos de uma cultura de origem e milenar fala de perto ao coração e nos irmana a todos - a criança eterna, como diz o poeta Fernando Pessoa “ dai-me uma mão a mim e a outra a tudo que existe...”

Acompanho Lydia há aproximadamente 50 anos. Companheira de muitos sonhos, muitas descobertas, muitas conversas, muitas inquietações, muitos desassossegos e muitas alegrias. Alegro-me vê-la expondo ao mundo o resultado de sua longa jornada, onde uma persistência criativa extraordinária se fez presente sem descanso. A mim parecia que ela estava buscando aqui e ali sem cessar, as cinco pedrinhas, aquelas que continham todo o Universo e por isso seria perigoso deixá-las cair no chão.

Encontramo-nos em meio a duas brincadeiras: as cinco pedrinhas sua saga e a brincadeira de pipa a minha saga. Dois gestos, dois movimentos, dois corpos entregues a impulsos vindos de lugares somente identificados por aqueles que brincam. Gestos que se repetem há milhares de anos, em diversos lugares do mundo, dentro de uma ciclicidade que fala de um tempo circular e não linear e que por uma razão que a razão desconhece nos encanta e ao mesmo tempo nos desafia.

Tivemos um contato pessoal com o Professor Agostinho da Silva que nos iniciou na compreensão da força do Brasil mestiço, com a presença da matriz indígena, africana e ibérica na construção de nossa identidade. Foi ele quem nos revelou o significado da Festa do Divino presente em quase todo território brasileiro como reminiscência do Culto Popular do Espirito Santo. Vindo de Portugal. do reinado da rainha Isabel e D. Diniz, este mito referenda as três idades de Joaquim de Fiore, abade medieval que anunciou profeticamente a chegada do Reino do Espirito Santo, após o reino do Pai e do Filho. Este reino anunciado inauguraria o tempo da abundância, da liberdade e da criatividade que é retratado através da coroação de uma Criança imperadora dessa nova idade, desta nova era.

Havia algo que nos ligava nesse percurso e, que de minha parte vejo como o reconhecimento de um amor ao Brasil, um compromisso profundo com esta Terra Natal, um sentimento de pertencimento a uma cultura onde intuíamos encontrar uma força encoberta que era e ainda é preciso ser revelada. Uma força que impulsiona a brincadeira das cinco pedrinhas, a brincadeira de pipa e as demais brincadeiras que estão presentes nessa Ocupação, bem como nossos folguedos e festas populares, que na verdade, ocupam todo o nosso território de norte a sul, de leste a oeste. Lydia se dispôs a recolhê-las e, como musicista que é de formação, veio pontuando as notas e os ritmos, compondo uma narrativa brincada e cantada que sinaliza a alma brasileira a caminho.

Essa pulsão criativa, essa alma em movimento, manifestando-se nas brincadeiras, nas festas, nos cantos, nas danças, nas músicas e na infinidade dos repertórios humanos batizados com a Alegria da miscigenação de nosso povo, cuja mistura que enobrece nosso território tropical, vem se misturando ao longo dos anos, imprimindo suas existências e resistências em busca de nossa formação como povo brasileiro.

Destacando o Brincar como um mistério da criação que se realiza no ser Criança, em sua iniciação ao dar o SIM à Vida, é nessa vertente mestra do desenvolvimento humano, nesse território da Liberdade e da Alegria que Lydia mergulha e vai encontrando as suas cinco pedrinhas multiplicadas por infinitos movimentos, que embora diversos, estão falando de uma mesma Unidade, aquela com a qual a alma se veste e vai ao longo de nossas vidas brincando de esconde-esconde. E o que fazer senão o mesmo que as crianças fazem? Brincar, Brincar e Brincar, entregando-se ao imprevisível, suspendendo o tempo e o espaço, comungando do fluxo da vida que se desdobra em gestos infinitos de sentido, aos quais chamamos de brinquedos e brincadeiras.

É Mario de Andrade que na primeira metade do século XX disse : "o Brinquedo socializa mais do que uma sessão solene e na liberdade do brinquedo determinam-se inconscientemente muitas características de uma raça. Poder-se-ia escrever um livro sobre a psicologia das raças, estudando unicamente os brinquedos nacionais."

Um pouco mais adiante eu diria que os registros da Lydia Hortélio avançaram, ampliaram e hoje confirmam a existência de uma Cultura própria da Infância, cunhada por um corpo-alma que brinca no chão da natureza, celebrando a memória da história da humanidade, tendo a Imaginação como sua essencial aliada na ampliação e atualização das infinitas possibilidades de exploração, característica comum do percurso do ser humano em busca de si mesmo.

Ao longo dos anos, convivendo com as crianças que brincam na Natureza da Casa Redonda, não temo em afirmar que o Brincar é a linguagem expressa pela Alma humana em sua destinação para cunhar na Terra a sua experiência evolutiva. Neste sentido, esta narrativa, que se inicia na Criança, é o marco da construção da Humanidade. Ao mesmo tempo, início e futuro da nossa espécie. A Criança inaugura o Homem na Terra e no Infinito, os dois lugares que segundo Milton Santos nós habitamos.

O Brincar é a linguagem dessa ponte. A criança transita com serenidade entre estes dois espaços e por isso ela nos encanta. Vem a minha memória um proverbio de Salomão que diz: “Antes que Deus fizesse a Terra e o primeiro átomo de poeira do mundo, quando ele dispôs os céus, quando ele traçou um círculo sobre o significado do abismo, quando ele fixou as nuvens no alto, quando pôs os fundamentos da Terra, Ela estava trabalhando com ele, e todos os dias Ela achava uma delicia Brincar sem cessar em sua Presença”.

Aqui está a maestria da criança, o Sim à Vida, no aqui e agora de suas brincadeiras, revelando-se diante da criação. Maestria que é revelada em momentos que não se repetem porque fazem parte do estado de inteireza, compenetração e profundidade, com o qual a criança vive a sua infância, se compreendendo e compreendendo o outro e o mundo, enquanto brinca.

A imaginação é sua companheira inseparável, seu portal de entrada em busca de sentido. Não há gesto de criança que seja aleatório, os brinquedos e as brincadeiras todas elas falam de um sentido individual e coletivo. Todas elas pertencem ao universo do sensível que precede qualquer racionalidade. E é neste apelo à dimensão do sensível presente no ato de Brincar que o EU e o Outro nos e tornamos companheiros de uma jornada de vínculos. Nos tornamos companheiros de relações onde a linguagem dos afetos passa a ocupar um lugar significativo, se desdobrando em aprendizagens mútuas.

É bonito de ver a criança se revelando enquanto brinca como um ser que se move a partir de uma singularidade que muitas vezes nos espanta, tal sua nitidez. Já está ali presente em embrião, o Homem. O Brincar é revelador dessa presença. Sem liberdade a Alma não se revela. Podemos sem sombra de dúvida associar ao Brincar uma função transcendente, aquela que transgrede o tempo e espaço do cotidiano e revela-se num fluxo de vida imprevisível onde os mistérios habitam. Para mim há ainda uma zona de mistério que envolve o Brincar e que nos escapa. Há algo que se sagra enquanto se brinca. Quando Lydia fala do esquecimento de si mesmo que se opera enquanto se Brinca, creio que nesse momento se insere a dimensão do sagrado, a presença do espirito que o Poeta irradia quando ele fala da criança “que é humana e divina”, unindo criador, criatura e criança numa trindade criadora.

Imagem do site http://www.infoartsp.com.br/agenda/ocupacao-lydia-hortelio/ Créditos: Shai Andrade