EU e o Outro

Todo o ser tende a realizar o que existe nele de potencial a crescer, a completar-se!

Isto é o que acontece à semente do vegetal e ao embrião do animal. No homem nasce a capacidade de tomar consciência desse crescimento e mesmo influenciá-lo.

“Afirmo a Vida”, diz Albert Einstein, porque seja qual tenha sido o destino dos Sóis e dos Universos, existe uma coisa que chamamos evolução nos ciclos das espécies humanas, por mais breve que seja sua existência, medida em termos astronômicos. (...) Quando pensamos em nossa vida e nossas esperanças temos, quase invariavelmente, de encarar a descoberta de que nossas realizações e empreendimentos estão intimamente entrelaçados com a existência dos outros. Homem nenhum consegue encontrar-se com sua própria alma se não atinge o equilíbrio entre si mesmo e a sociedade”.

Toda civilização e toda cultura nasce de raízes de uma ação individual que se distribui como ação grupal e social. Só o indivíduo pode pensar e pensando, criar novos valores para o mundo. Sem pessoas que pensem e criem, o desenvolvimento é inconcebível. O indivíduo não pode crescer sem o apoio de uma comunidade cooperativa.

Isso demonstra a nossa dependência de nossos semelhantes. Não importa a grandeza ou a distinção dos dons ou potencialidades de um homem, seu valor depende primariamente do grau em que suas emoções, seus pensamentos e suas ações se dirigem para o desenvolvimento da vida de seus semelhantes.
Os alimentos que comemos são preparados e trazidos à nossa mesa por nossos companheiros. As próprias roupas que usamos são tecidas e costuradas por outros. Mãos alheias constroem o abrigo que chamamos de lar ou de local de trabalho. Nossos conhecimentos e crenças, em sua maior parte, são uma herança. Outros vêm criando, há muito tempo, os meios pelos quais a compreensão chega a nosso cérebro. Sem a fala nossos cofres mentais ficariam totalmente vazios. Sem ela, o nosso horizonte intelectual não iria além da de um elefante ou macaco.

A Linguagem cria a irmandade entre os homens.
É esse dom, a capacidade de transmitir para os outros ideias e emoções, que diferencia o bípede humano de seus parentes zoológicos. Inteiramente abandonado a si próprio, o homem é mais indefeso do que os animais. Tente imaginar um bebê abandonado para crescer num ambiente, absolutamente sozinho, desde que nasce. O primitivismo dessa criatura escapa à nossa imaginação.

A saúde da sociedade não depende menos da integridade de cada individuo do que dos laços sociais que unem o individuo a seu grupo.
Um dos sintomas, o mais vergonhoso que fere a dignidade pessoal de que nosso mundo civilizado sofre hoje, é a forma como uma grande maioria dos seres humanos s submete às pressões advindas de sistemas que imprimem ideologias totalitárias, quando uma massa sem acesso ao exercício de sua capacidade e direito de pensar com independência.

Atualmente pode-se levar o povo de qualquer país, no espaço de duas semanas, a um tal grau de ódio e histeria que seus membros individuais estão prontos para matar ou ser mortos, por armadilhas militares.

As manifestações atuais de desintegração do tecido social trazem como possíveis causas o fato do crescimento da indústria e da tecnologia, atreladas ao sistema capitalista, ter tornado mais aguda a batalha pela existência a um ponto tal que ela se torna um obstáculo ao livre desenvolvimento do indivíduo. A revolução tecnológica deveria ter produzido efeito oposto, diminuindo a exigência de que o indivíduo trabalhe mais para atender à demanda da comunidade.

A humanidade está sofrendo hoje, não porque tenha deixado de progredir, mas porque progrediu depressa demais, além de criar necessidades inusitadas e desnecessárias para a sobrevivência humana. Como resultado está a ocorrer o fenômeno de desemprego e a inquietação social por toda parte, num mundo onde o consumo se instalou como valor material prioritário enfatizado pelo sistema econômico vigente, trazendo consequente instabilidade ao equilíbrio espiritual e saúde mental da humanidade. Entretanto, esta mesma humanidade começa a se dar conta da aceleração à qual está exposta e sobre a qual deverá repensar a dignidade de suas próprias vidas. A própria intensidade de nossos distúrbios indica a determinação com que tanto o indivíduo quanto o organismo social querem se ver livre das pressões que induzem a todos um tipo de sofrimento. Reavivadas por um novo senso de liberdade e compromisso social, as energias, que agora estão reprimidas, serão liberadas na alma do individuo, apropriando-se de sua força criadora para imaginar e realizar uma organização social onde o espírito de interdependência entre EU e o Outro, entre indivíduo e a comunidade, seja capaz de ampliar a vida cultural e espiritual da humanidade.