A Criança e a Árvore

“A Criança e as árvores buscam o que é mais alto para elas” José Paulo Paes

A cada dia que olho uma árvore florida, uma criança brincando, um pássaro cantando, a dança do sol e da lua convivendo com um movimento cíclico compondo os dias e as noites, ocorre na minha lembrança a pergunta de uma criança diante de um vaso de flor de maio.

- Porque esta planta tem flor cor de rosa?

Pergunta simples, direta como fazem as crianças. Surpreendi-me diante daquela pergunta, que me pôs num movimento de retornar para ela a questão, e perguntei-lhe:

Então, Maria, como será que esta planta sabe que suas flores devem ser cor de rosa?

Ela, muito atenta, parou, olhou para a planta e respondeu: A semente dela sabe!

Sim, a semente sabe! Ali, na simplicidade de um reconhecimento direto, aquela criança apontava para uma sabedoria da natureza! O milagre da vida se desenhando sob o impacto de vibrações da luz que vão tingindo de cores e formas a natureza à nossa volta. Deve haver uma instância de onde emana uma inteligência criadora, um desenho no sentido de desígnio, implícito em todas as formas explícitas.

A Vida é a expressão de uma Unidade, penso, que vai se desdobrando em formas infinitas. E dessa dança fazemos parte.

Por volta de 1750, na Inglaterra, havia o que se chamava de Sociedade Lunar, um espaço onde pessoas se reuniam, mais ou menos uma vez por mês, numa fase determinada da Lua, para pensar e discutir o que poderiam fazer sobre os temas pertinentes ao tempo que viviam.

Haviam poetas, médicos, botânicos, homens e mulheres e lá se encontravam os dois avós de Darwin. Nessa Inglaterra, onde iria começar a revolução industrial,

Erasmo Darwin criou o conceito de Templo da Natureza, que é o nome do seu livro.

O Templo da Natureza era um templo a ser preservado, o que é uma ideia muito antiga. Já nessa época, ele chamava a atenção para a ciência que até então tinha para com a Natureza uma atitude contemplativa, de reconhecimento: um “templo” onde a vida se revelava em sua infinita multiplicidade.

Ele pressentia que o Homem estava iniciando um processo de descolamento dessa Unidade, aderindo às forças que apontavam para um caminho de tornar a

Natureza um objeto a ser explorado, dominado pelo viés de ideologias que traziam embutida a percepção do Homem como “o Senhor absoluto do Mundo”.

Sua intuição se confirma e a ciência passa, então, a se orientar por ideologias politicas e econômicas, perdendo o sentido contemplativo original de ver a natureza como ela é. O sentido de natureza como Templo, onde a vida se revela a cada instante.

Lugar de encontro da criatura com a criação, espaço escondido, do segredo desconhecido, onde o imprevisível se faz presente e se aguça o maravilhar-se, o encantar-se com a beleza, a força com a qual, nós também parte da natureza, compartilhamos.

Esse Templo estava a dissolver-se num sistema de controle, de conhecer para dominar, para acumular poder, criando uma ruptura cuja ressonância dolorosa estamos sentindo em nossa vida atual.

Antecedido por três reinos da natureza – o mineral, o vegetal e o animal - o Homem vem se aperfeiçoando num processo gradativo de sintetizar em si próprio estes reinos; manifestando-os em combinações cuja complexidade lhe traz a oportunidade de se descobrir como a Consciência que funda um quarto reino e, por que não, estar preparado para possíveis outras cadeias em evolução.

Como diz um poeta anônimo:

O Espirito dorme no mineral,
Sente no Vegetal,
Sonha no animal,
Acorda no Homem!

Nascidos num planeta sólido, habitando a crosta terrestre, somos um dos caminhantes que dominam uma linguagem e com ela nos tornamos narradores de uma peregrinação.

Esta narrativa vem se construindo, ao longo de milhões de anos, constituída por elementos que estão presentes em nós como substancias que caracterizam a Vida em nosso planeta: a Terra, o Fogo, a Água e o Ar.

Para muitas civilizações, estes elementos eram considerados entidades vivas, espíritos da natureza que eram antromorfizados pelos grupos humanos. Os quais possuíam uma relação de comunhão intensa com a natureza.

Ao longo da historia, estes quatro elementos, que tinham participação direta na nossa sobrevivência, foram alvo de interpretações que os definiam por diferentes atributos. Todos eles mostrando uma relação direta com a psique humana.

Da bactéria ao ser humano a vida, silenciosamente, se auto organizou sob um impulso criativo continuo resultando nessa espécie que somos hoje, compartilhando de uma cadeia infinita de mistérios a serem gradualmente revelados.

Hoje temos consciência de que não somos um ser isolado no mundo, mas sim a presença de um processo de bilhões de anos que chegou até aqui. Nós, humanos, comungamos da terra, da água, do fogo e do ar como dádivas preciosas para nos aventurarmos a viver nesse planeta como um aprendiz nato, absorvendo a cada instante os dinamismos que a vida nos propõe, nos instigando a vivê-la.

Cada instante da vida envolve em si um significado indescritível, pois sabemos que é de dentro de nós que brota a realidade, a insistência da vida, que consiste em darmos inicio à aventura de criarmos a nós próprios.

Estamos dando os primeiros passos ingressando em dimensões planetárias e cósmicas, saindo do período moderno, antropocêntrico. Confiemos em todo processo cósmico. Ele tem trabalhado bilhões de anos numa atividade modeladora invisível. Cada estágio em desenvolvimento transcende o que lhe antecede e assim o Cosmos se desdobra infinitamente, inclusão após inclusão.

Somente agora estamos começando a compreender a Terra como um dos elos dessa corrente auto organizadora de uma complexidade e realização inusitada.

Dos átomos à fantástica natureza que nos envolve, todas as coisas vivas nos mostram um dinamismo centrado e invisível.

Ora, é chegada a hora de sairmos de nosso quintal particular que não vai nos levar a lugar nenhum.

É preciso escutar as crianças que nos colocam, em suas explorações do mundo, perguntas que nos levam a pensar.

“Porque meu olho é pequeno e vejo o mundo tão grande”? João - 4 anos.

Entremos no campo onde as crianças brincam e juntemo-nos ao seu jogo. A Lila, o jogo da Vida imprevisível, onde a Alma pode atravessar os portais.

Entremos no sistema da Terra, como as crianças, olhando grande, aventurando-se no desconhecido pela razão bastante simples de que talvez seja esse o motivo para o qual fomos criados.

O novo não se inventa, descobre-se. Dizia Milton Santos.

Único no gênero entre as espécies, o ser humano faz das descobertas, das experiências e, sobretudo, dos aprendizados, as atividades centrais de sua vida.

O gesto humano comunga, individual e coletivamente, do descortinar dos véus que velam o inesperado, o desconhecido, o encoberto, aguardando o momento propício para ser revelado.

Precisamos de um novo homem, uma humanidade que crie novos relacionamentos entre si, abrindo–se às realidades primárias do universo. O desejo de compartilhamento é uma raiz das dinâmicas do cosmos. Nossas dificuldades enquanto espécie neste planeta são provenientes de nosso erróneo relacionamento com os reinos que comungam conosco o mistério da Vida.

Terra, Fogo Água e Ar são substancias de nossas experiências diárias, diretas e concretas. Elas fazem parte de nosso habitar terrestre e supraterrestre e sem elas a Vida não se processaria. Não temos como descrevê-las senão através de nossos sentidos.

Todos sabemos que a teia da vida é um conjunto de relações estabelecidas por esses elementos que, forjados por combinações infinitas, das mais simples às mais complexas, compartilham juntos conosco da alquimia fantástica da Vida.

“Todo mundo pensa que Deus é maior do que tudo. E Deus não é maior do que tudo? Perguntei a uma criança de seis anos. Ele respondeu firmemente:“ Não,

Deus não é maior do que tudo, maior do que tudo é a vida. Eu acho que a Vida é que é Deus”. Omar

Verdadeiramente não podemos separar o Criador da Criação, sem corrermos o risco de deixarmos de conviver com o grande mistério que é a Vida, propondo-se a cada instante numa escala infinita.

Somos uma experiência do Universo ou Multiverso, dotados hoje de um corpo físico, emocional, mental e espiritual, disponibilizados para uma aventura da consciência. E quem sabe estamos no limiar de darmos um passo na espiral da Vida, compreendendo nossa interdependência com todas as coisas vivas. E tudo são coisas vivas.

O desenvolvimento da terra depende do desenvolvimento Humano, visto que cada situação da Vida se torna um desafio para o homem e apresenta um problema a ser solucionado.

Daí que temos que inverter a pergunta sobre o significado de nossas vidas, pois é a própria vida que nos devolve a pergunta; e só nós podemos respondê-la sendo responsáveis por ela.

A responsabilidade é a própria essência da existência.

“Sentados no degrau da porta de casa
Brincávamos com as cinco pedrinhas
Graves como convém a um Deus e um poeta
E como se em cada pedra estivesse todo o universo
E por isso seria perigoso deixa-la cair no chão.”
Fernando Pessoa

Gosto da poesia como gosto das crianças, porque ambas participam de uma memória atemporal e sem espaço, e trazem na essência o dialogo entre o Criador, a Criatura, a Criação e a Criança, como as matrizes que primam por reencantar o mundo e denunciar o conformismo, a inercia e a falta de imaginação.

Criar um horizonte que nos ponha no movimento das árvores e das crianças, lançar-se para o mais alto, voar, eis a tarefa de nosso tempo.

Mãos à Obra com Alegria.

Compilação de leituras reflexivas - Equipe Casa Redonda