O tempo da Primavera

O equinócio da Primavera se aproxima e com ela a Natureza irrompe em brotos e flores que vão colorindo nossas vidas de acordo com a dança dos raios de sol sobre nosso planeta.

O equilíbrio entre o dia e a noite e a proximidade maior dos raios solares sobre nossos corpos geram novos dinamismos pouco percebidos e até mesmo ignorados, devido ao nosso ritmo acelerado que não nos permite ter um tempo para nos encantarmos com as flores e escutarmos os cantos dos pássaros que se expandem nessa época. Passamos pelos ciclos regidos pela Luz que emana da relação entre a Terra e o Sol, como se nada estivesse acontecendo, como se nada nos atingisse, tal é a inconsciência de nos percebermos e reconhecermos a profunda interação entre o Homem, a Natureza e o Cosmos.

As crianças, entretanto, já anunciam em suas brincadeiras a mudança da estação que se aproxima. Seus corpos, sabedores diretos dessa comunhão, imediatamente respondem às novas vibrações.

Os elementos, principalmente a água, a areia e as misturas que delas decorrem, se transformam num laboratório de experimentações. Cresce a necessidade de contato corporal onde a libertação das roupas do frio permite mais flexibilidade do corpo, ampliando um repertório de brincadeiras até então adormecidas pelo Outono e Inverno.

Como pássaros voando em bando, nessa época surgem brincadeiras que agrupam mais as crianças e as impulsionam para uma maior movimentação corporal, ampliando os vínculos e os desafios interativos. A musica para dançar é mais procurada, proporcionando experiências com diferentes ritmos. Personagens vão nascendo, enredos vão surgindo, cenários vão sendo criados, servindo a expressões criativas que respondem ao mundo da fantasia.

Observar e sentir estas manifestações fortalece a consciência de que nossos corpos respondem às demandas da natureza. Independente de termos nos afastado dela, os raios solares continuam gratuitamente, emitindo vibrações coloridas como alimento especial que nos revigora e nos vitaliza durante esta estação do ano.

Façamos um pequeno exercício de observação sensível, a educação começa por aí , nos gestos simples de OLHAR as flores, bebendo as cores que delas emanam e o perfume que delas exala, comungando com a força da Natureza que na Primavera nos presenteia com suas cores.

Como podemos nos tornar seres com uma consciência ecológica se não compartilhamos sequer de um OLHAR de reconhecimento e acolhimento de sua beleza?

Temos nos habituado ultimamente a ouvir um discurso racionalista que aponta somente para os perigos da destruição que o homem está fazendo com o Planeta Terra. Acreditamos ser importante hoje, uma educação que aponte o belo que a Natureza nos oferece, que nos ensine a perceber nela os ciclos, os ritmos, a fantástica variedade de formas e de cores, assim como o total equilíbrio com a qual ela se autorregula e se auto-organiza.

Precisamos reaprender a VER habituando o olho ao descanso, a paciência, ao deixar aproximar-se de si, isto é, capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa a um olhar demorado e lento como diz o filosofo Byumg-Chulhan em seu livro a Sociedade do Cansaço.

Aprender a Ver seria a primeira escolarização do espirito e como é natural nas crianças pequenas esse olhar que vê o que o adulto não enxerga mais. Hoje vivemos num mundo pobre de interrupções, de tempos intermediários, de intervalos onde podemos entrar em contato com impulsos que levam nosso olhar para mundos distantes, rompendo a estrutura de nossas rotinas. A educação do sensível nos aproxima da natureza quando verdadeiramente passamos a olhá-la como a grande companheira de nossas vidas, nos assombrando com a sua beleza e a sua força. Aí sim, o discurso se transformará numa relação amorosa, única possibilidade real de deixarmos de destruí-la.

A Casa Redonda acredita que o belo nos oferecido gratuitamente pela Natureza se constitui num alimento essencial para nossas vidas. As flores, os pássaros e os animais que povoam o nosso espaço são companheiros das crianças em seu dia-a-dia, nutrindo-as de uma energia não tangível, mas concreta em sua ação sobre o corpo sensível , sua alma, levando-as a se perguntarem ou afirmarem: “Porque eu tenho os olhos tão pequenos e eu vejo tudo grande”? Ou “Porque todas as folhas são verdes”? Ou “Porque o céu é azul”, “O azul que eu mais gosto é o do mar, do rio e do céu”. “O vermelho que eu acho mais bonito é o da rosa.” e tantas outras falas advindas das suas observações e seus assombros?

É essencial reaprendermos a ver, precisamos oferecer aos nossos olhos e ouvidos oportunidades de contatos mais sensíveis, mais harmoniosos, que façam um contraponto com a poluição visual a qual estamos hoje expostos.

Como diz a Camille Paglia “o olho sofre com anúncios piscando na rede. Para se defender, o cérebro fecha avenidas inteiras de observação e intuição. A vida moderna é uma mar de imagens . Nossos olhos são inundados por figuras reluzentes e blocos de texto explodindo sobre nós por todos os lados. A cultura do mundo desenvolvido é definida, em ampla medida, pela onipresente mídia de massa e pelos aparelhos eletrônicos servilmente monitorados pelos seus proprietários. A intensa expansão da comunicação global instantânea pode ter concedido espaço a um grande número de vozes individuais, mas, paradoxalmente, esta mesma individualidade se vê na ameaça de sucumbir”.

“Por falta de repouso nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo”. NIETZSCHE

Há como reverter esse movimento? Certamente que sim. Afinal somos seres inteligentes, sensíveis e criativos dotados de Consciência. O verbo contemplar será o grande recurso a ser utilizado para nos colocarmos a caminho de uma vida mais equilibrada como o dia e a noite desse equinócio em que estamos entrando.

Que seja a contemplação o gesto que nos ponha em movimento nesta Primavera!

Imagens de Rinaldo Martinucci