Educador de Almas

O olhar de um visitante

A Casa Redonda e a essencialidade do Brincar

Hoje conheci a Casa Redonda, uma escola para crianças de 3 a 6 anos de idade, localizada em Carapicuíba, município vizinho à capital paulista. Fiquei tão tocado com a prática dessa escola que meu deu vontade de dizer a todos os meus ex-alunos, a todos os estudantes de pedagogia, a todos os aspirantes a educadores de crianças o seguinte: "vai lá, pode deixar de lado essa faculdade, ela é praticamente inútil, ela não te ensina praticamente nada para lidar com crianças, mas vai lá nessa escola, faz uma visita, pede um estágio lá, tenta fazer uma formação lá, escute o que aquela senhora fundadora dessa escola tem a dizer sobre a infância, sobre o brincar, sobre o Brasil, sobre a vida... lá você vai encontrar uma verdadeira formação!

O lugar é belíssimo! Uma casa com árvores e muitos passarinhos, uma boa área gramada, brinquedos ao ar livre. Tudo pensado e organizado para as crianças serem crianças. Brinquedos ao alcance dos pequeninos, tudo feito com material simples que eles montam, desmontam e criam à luz da imaginação. Há muito material e muitos espaços à disposição. Tudo simples: a mesa, por exemplo, é feita com um compensado que se coloca em cima de caixas de feira. Tudo pintadinho de verde. Bem bonito, bem bonito. A arquitetura das construções são inspiradoras, redondas, criativas, divertidas. Brinquedos antigos, muitos de madeira, materiais diversos, instrumentos musicais e... o mais importante: a natureza à disposição para andar, correr, interagir com os amigos e explorar o mundo do jeito sensorial e corporal como todas as pedagogias inteligentes falam que deve ser mas que raros educadores tem a coragem de fazer acontecer. Aqui na Casa Redonda brincadeira é coisa séria. E, pelo que pude sentir, o trabalho dos adultos é o de proteger esse espaço para que a criança tenha a liberdade de expressar sua vitalidade na interação social e se desenvolver a partir de si mesmas.

As crianças chegam por volta das 8:30 e começam a brincar. E ali passam a manhã inteira brincando até às 12:30. Hoje estava chovendo e todos me diziam: "hoje é um dia atípico. Você precisa vir num dia de sol para ver as crianças brincando ao ar livre." Mas foi bom perceber como eles lidam em dias atípicos. E foi maravilhoso. Debaixo da tenda e dentro da casa os educadores criaram algumas opções para as crianças iniciarem sua exploração pelo brincar. Um cantinho da argila, outro das velas, uma mesa virou autódromo de carrinhos, e um outro cantinho, muito interessante, o jogo de areia: sandplay (usado como instrumento terapêutico por psicólogos, são caixas de areia onde as crianças brincam de modelar a areia, fazer e desfazer). E lá dentro da casa, os caixotes viraram paredes das "casinhas" e cangas se transformaram em "coleiras" com as quais a "mamãe" levava os "cachorrinhos" para passear...

E assim as crianças brincavam, conversavam entre si (a maioria são filhos únicos), percebiam seus limites e davam asas à criatividade. Tudo sob o olhar dos educadores e da Peo, a diretora, com quem pude conversar um pouco mais. Creio que o olhar de um adulto como a Peo faz toda a diferença. Não é um olhar qualquer. Conversando com ela pode-se perceber uma pessoa com enorme admiração e senso de mistério diante de cada criança e suas brincadeiras. Uma pesquisadora da mente e dos gestos das crianças que expressam, através da brincadeira, algo do conhecido, mas algo do misterioso, do simbólico, daquilo que é universal mas que se revela originalmente em cada criança. A sabedoria do corpo. Senti ali ao lado dela que os bons educadores partem desse pressuposto de abertura a uma epifania: "a criança pode me revelar algo". O sentido de vida, o drama humano, o lugar do homem no cosmos é revelado através dos gestos das crianças quando brincam espontaneamente.

E assim ela me contou que passou anos observando as crianças soltando pipa. Toda a seriedade, a interação, a concentração das crianças, fez com que ela percebesse o simbólico, o elemento sagrado e reverente no ato de brincar. Uma vez, no Japão, um homem que assistia sua apresentação das fotos da crianças soltando pipa concluiu assim: "play is pray" (brincar é orar). E ela hoje diz assim: "aqui praticamos a pedagogia da pipa: os pés no chão e os olhos no céu". E é assim há 30 anos.

Então a primeira qualidade do educador é a contemplação. O olhar contemplativo, de pesquisador e de aprendiz, para o humano e o sagrado que se revela na criança. A segunda qualidade é o jeito de intervir, é a forma de entrar nesse universo dos jogos e das brincadeiras das crianças para intermediar as relações, os conflitos. E é aí, nos conflitos naturais que surgem a partir das brincadeiras, que se constrói a noção do respeito ao outro, tão essencial a uma vida ética em sociedade (cidadania). Aqui aprendi com a Peo a fazer isso sem dar aulas ou lições de moral. Mas no diálogo vivo com as crianças. Por exemplo quando um grupo não quer incluir uma criança no jogo. Então o adulto percebendo a situação entra e leva as crianças a refletirem e exporem as razões. Chama para uma conversa, faz-se uma reunião. E elas, ali, na expressão verdadeira de seus sentimentos vão aprendendo a conviver e a incluir o outro e a lidar com as frustrações.

Não dá para descrever a Casa Redonda em um artigo. Mas fiquei muito interessado ao saber sobre as reuniões onde analisam os desenhos das crianças, através dos pressupostos Junguianos, e de como há frequentes encontros com os pais. E também do trabalho de Calatonia que fazem na escola, uma metodologia de sensibilidade corporal que inclui, por exemplo, massagens suaves com pétalas de flores, gotinhas de água no corpo, relaxamento, toque sutil, silêncio...

E nessa manhã havia mais uma novidade. O dia era realmente atípico. Sorte a minha. Era o dia de visita dos ex-alunos que faziam aniversário. Como estava chovendo, todos foram para dentro da casa e sentaram-se em círculo. No meio, os dois meninos que completavam 7 anos, aguardavam ansiosos o bolo. Era um verdadeiro ritual de passagem. Aos 7 anos de idade as crianças precisam ir para outra escola. Então eles vêm e passam o dia brincando com as outras crianças. E na hora do ritual todos estavam ali no círculo, educadores e crianças sentados juntos. Então uma criança segurava o sininho de meditação conhecido como "pim" e iam cantando um versinho. Quando acabava o versinho a criança tocava o "pim" acima da cabeça de cada um dos integrantes da roda. Nesse clima solene e sagrado, a criança parecia um monge que passava e acalmava um a um que fechava os olhos por um tempo para receber o toque do sino...

Depois de todos receberem o "pim" chegaram os bolos. Cobertura de chocolate! Um para cada um dos dois meninos que então receberam 7 velas. Cada um no seu tempo acendia as 7 velas, com um daqueles fósforos bem compridos que vendem nos supermercados. Não é fácil acender sete velas e deixá-las fincadas no bolo. Mas todo mundo esperou o tempo deles. Todo mundo acompanhava. E nenhum adulto se intrometeu na tarefa de cada um acender as próprias velas.

Eles conseguiram.
Já dominam o fogo.
Creio que esse seja um passo importante no ritual.
No ritual da vida sobretudo.
Com as velas acesas o parabéns.
O sopro que apaga as velas.

Em seguida, cada um com a faca, abriu o bolo no meio à procura do cristal. Isso mesmo, havia um cristal escondido em cada bolo. As crianças ganham esse cristal que os acompanha a vida inteira. E sempre que precisarem pegarão o cristal de novo e tudo o que pedirem ao cristal se realizará.

Os meninos acharam o cristal, seguraram-no junto ao coração com as mãos em prece e fizeram os pedidos. E depois passaram o cristal de mão em mão para que cada uma das pessoas da roda também fizesse seus pedidos.
Depois de passar por diversas crianças o cristal veio se aproximando da minha direção. Comecei a pensar: "o que eu vou pedir?" Mas ao meu lado estava a Peo. Ela pegou o cristal, olhou nos olhos do menino com aquela presença amorosa de sempre e disse assim: "deixa eu ver o que eu vou pedir para você".

Nossa! Que aprendizado!! O cristal é da criança. Vai acompanhar esse ser humano por toda a vida. Nada mais óbvio do que energizar o cristal com votos de felicidade para a própria criança. E eu estava pensando em mim. Aprendi a lição de ser mais generoso e menos egoísta.
Então quando o cristal chegou na minha mão, com amor e emoção, desejei os melhores sentimentos para a vida do menino... que seja feliz, que viva o amor, que encontre a paz, e que a cada revez da vida, ele possa se lembrar de que está aqui para ser feliz e pode alcançar esse estado de paz e harmonia dentro dele mesmo.

E assim pude perceber a vida! A vida vivente! Pulsante e verdadeira...

Ao visitar a Casa Redonda pude sentir esse senso sagrado da vida e o vínculo do homem com a natureza e com os processos e ciclos da vida. Soube que valorizam festas e fogueiras aqui. Todos os elementos, entremeados pela cultura brasileira. E me lembrei das reflexões de Rabindranath Tagore sobre sua escola na Índia e me emocionei por estar num lugar com uma vida espiritual tão intensa.
E entendi que há uma enorme perda de tempo nas discussões de religião e ensino religioso...

O que precisamos mesmo é que esse senso profundamente humano esteja vivo em nós e em nossas relações. E isso só pode acontecer em clima de liberdade.

André A. Pereira
Professor, UFF, Rio de Janeiro, Brasil

http://educadordealmas.blogspot.com.br/2015/09/a-casa-redonda-e-essencialidade-do.html?m=1