Educação da sensibilidade numa sociedade sem fronteira

Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas uma alma humana. Carl G. Jung

No encontro com Dr. Paulo Machado em fevereiro de 2015, entramos em contato com ensinamentos e reflexões que tocaram as cordas de nossas percepções, sentimentos, pensamentos e intuições. Em cada um certamente foram mobilizados aspectos singulares, a depender da equação pessoal dessas funções da psique. Podemos imaginar o entrelaçamento que se opera dentro de nossa Psique entre as quatro funções apresentadas por Carl G. Jung, juntamente com as qualidades de extroversão e introversão também por ele estudadas. Combinações infinitas se constituem para acessarmos a compreensão de nós mesmos e do mundo que habitamos. Verdadeiro trabalho de Hércules em se tratando do tempo que estamos vivendo, onde nossas percepções, sentimentos, pensamentos e principalmente a intuição nos apontam transformações em curso acelerado. E assim buscamos nos equilibrar dentro desta dança espiralada e fantástica que oportuniza a todos nós um salto de consciência.

Estamos sendo impulsionados para um movimento de mudança. Sabemos o que não queremos, mas estamos a caminho de penetrar com cara e coragem na jornada do herói, aquele que segue o coração rumo ao desconhecido. E é este coração que vai nos encaminhar para integração das polaridades fragmentadas e unilateralizadas com as quais hoje convivemos. Momento importante, grande oportunidade de colocar nossas vidas a serviço do processo criador em busca de realizar esta unidade numa outra rodada da espiral da vida.

O tempo é de restauração, buscando descobrir o velho que um dia foi novo e o novo que aponta para paisagens desconhecidas que, quer queiramos ou não, vamos nos deparando com elas e descobrindo os seus mistérios. Mistérios que pertencem à aventura e ventura da consciência, trajeto irreversível de nossa Humanidade.

Os medos hoje tão instingantemente “produzidos” pelo sistema, que vêm tentando nos aprisionar e nos colocar paralisados frente às questões do nosso tempo. São eles justamente, por incrível que pareça, as alavancas das mudanças em processo, rompendo as fronteiras, abrindo horizontes novos.

“Deus quis que a terra fosse toda una. Que o mar unisse e não mais separasse” diz o poeta Fernando Pessoa. Ventos sopram as utopias que trazem os movimentos de esperançar e acredito que é nessa onda que temos que mergulhar. Somos seres em evolução, basta olharmos para traz.

No pórtico da casa de Jung havia a seguinte fala: Invocado ou não, Deus está presente. Tive uma vez uma intuição de que esse Deus, esta força que rege o universo e faz acontecer a beleza de uma flor, o canto dos pássaros e a própria vida que vive em nós, esse Deus era escrito de forma luminosa “D’eus”. Nesse insight tive a percepção de que somos esses EUS que não têm a ver com o eu egoísta, este eu obscuro que abastece o individualismo do nosso tempo, mas ao contrário é o Eu que nos reúne como uma só consciência que vai se expressando através da compreensão de que fazemos parte de uma Humanidade em construção; que habitamos um planeta vivo - a Terra, com o qual deveríamos compartilhar e sagrar a sua existência, nos entendendo como uma experimentação do Universo que nas palavras do Manuelzão de Guimarães Rosa se torna mais explícita quando lhe perguntaram: -Você acredita em Deus e ele responde: “Se ele existe eu não sei, mas sei que estamos aqui emprestados.”

Todos me parecem estar aqui neste planeta emprestados à aventura e ventura da Consciência. O caminho implícito e explícito no processo gradativo do desenvolvimento da consciência vai sendo tecido desde o nascimento. O educador de hoje é um ser chamado à compreensão dessa experiência do Eu mais profundo, onde por certo se encontra nossa Alma, que vai se revelando num processo de individuação através das experiências de autoconhecimento. Somente um desenvolvimento da PESSOA do professor será capaz de libertá-lo para vir a ser o adulto criador que toda criança espera.

O professor guardado e aguardado para criar e inventar uma nova escola terá que incorporar conhecimentos que afirmem dentro de si a reconciliação com a transcendência, e se considere como um ser trino onde o corpo, a alma e espírito possam estar em comunhão.

É preciso que a pessoa do professor se debruce sobre a historia de seu país, buscando descobrir na mistura de sua gente um portal da consciência que re-une e cria a possibilidade de uma nova síntese da experiência humana. Cada povo traz seu modo próprio de dar sentido à sua existência, e essa diversidade é importante para a construção dessa sociedade sem fronteira, onde se respeite as diferenças, sabendo acolher a unidade humana que subjaz por dentro de cada gesto.

As culturas e as identidades são como as pessoas, elas entram em relação uma com as outras ao mesmo tempo em que estão elas mesmas em continua transformação. Em 2014, no encontro internacional de Culturas e Identidades em Transição na cidade de Fès -Marrocos - foram colocadas indagações que mobilizaram nossas reflexões: “Como aceitar e encorajar a ideia de identidade coletiva ou singular em suas dinâmicas, diversidade e criatividade, sem fazer dessas identidades fixadas, dobradas sobre si mesmas, incapazes de se adaptar as suas épocas e a seus ambientes?

Por quais políticas, quais ações sociais, culturais, e espirituais estas identidades ricas de suas memórias e de suas histórias podem contribuir para criar e inventar histórias novas que engrandecem o homem e alimentam valores senão universais, ao menos comuns, de forma a dar à nossa humanidade, agora consciente de estar embarcada no mesmo navio, perspectivas novas, uma coexistência pacífica e mais enriquecedora, ao invés de se deixar levar pela engrenagem das “identidades que matam” sejam elas laicas, religiosas ou comunitárias? Vias podem ser encontradas para que identidades possam se conjugar trazendo cada uma sua parte de cultura, de arte e de espiritualidade ao invés de se excluírem e de se combaterem”. São estas as reflexões que se colocam hoje para o educador que quer se comprometer com a história do seu tempo, escrevendo uma narrativa em que as personagens se cumpram em liberdade, fraternidade e solidariedade.