Nós somos a essência da surpresa

É bastante deixar a criança em liberdade para nos encontrarmos diante da capacidade humana de seguir em direção ao imprevisível. Seremos surpreendidos a cada instante por um fluxo de possibilidades infinitas, revelando a necessidade da espécie de explorar, de ultrapassar os limites normais das coisas, de se sentir experimentando os espaços, olhando, escutando, andando, correndo, pulando, subindo e descendo sempre curioso dirigindo-se para alguma coisa nova que se encontra à sua frente. É justamente nesse mergulho de viver enfrentando a surpresa que ela vai criativamente tornando-se consciente de si mesma. Afirmar que este fluxo vital em direção ao contato com a vida que em si mesma se expressa, é essencial à espécie humana, significa compartilhar sobre o que os cientistas criativos, os artistas e os grandes santos entenderam como fundamental às suas próprias atividades. Único no gênero entre as espécies, o ser humano faz da exploração, das descobertas surpreendentes, das experiências e, sobretudo do aprendizado, as atividades centrais de sua vida.

O desenvolvimento da Terra depende do desenvolvimento do humano, visto que cada situação da vida representa um desafio para o homem e apresenta um problema para ele solucionar. Nesse sentido, a questão do significado da vida poderá realmente ser invertida. O homem não deveria perguntar qual é o significado de sua vida, mas, antes, deveria reconhecer que esta pergunta está sendo dirigida a ele, como afirma Brian Swimme. Em síntese, cada homem é interrogado pela vida e ele só pode responder à vida sendo responsável. A responsabilidade é a própria essência da existência humana.

“A insistência para que nos tornemos um jogo aventuroso e venturoso não é apenas insistência nossa, o Universo insiste nisso. O jogo aventuroso das formas de vida irrompe na fantástica e sublime diversidade dos últimos 500 milhões de anos. Pense no enorme trabalho de todas as formas de vida para ter chegado finalmente até nós. Entramos no sistema da Terra como se o aventurar-se no desconhecido fosse o motivo para o qual fomos criados, revelando o âmago do mistério da vida. Não podemos desperdiçar nosso tempo com trabalhos inexpressivos, preenchendo a vida com ninharias. O drama da história do cosmos não permitirá isto. A suprema insistência da vida consiste em nós darmos início a aventura de criarmos a nós próprios. Cada instante de nossa vida envolve em si um significado indescritível, tudo repousa na nossa autocriatividade, pois é de dentro de nós que surge a realidade suprema.” Brian Swimme

Sabemos que cada espécie tem seu próprio habitat, aquele lugar onde a espécie pode florescer. Se uma espécie não consegue encontrar o seu próprio habitat, seus legítimos dinamismos de vida não poderão ser estimulados e desenvolvidos rumo a sua vocação.

É justamente aqui, que encontramos as pedras no caminho da educação. Há um contingente de seres humanos que estão hoje sendo deslocados por lei de seu próprio habitat: as crianças do nosso país estão na emergência de se constituírem uma massa informe destinada a uma obrigatoriedade que lhes imputa a permanência em espaços de aprendizagem que desconhecem em sua maioria a linguagem da Infância: o imprevisível, a imaginação, o brincar, a fantasia, a curiosidade, a aventura e a exploração livre e criativa. Uma criança que é afastada desse lugar da aventura, da surpresa, do brincar, da natureza e da alegria de viver está se afastando da oportunidade de tornar-se verdadeiramente humano.

E esse risco já vem se anunciando no processo de escolarização que privilegia estatística e currículos excluídos de uma reflexão sobre as necessidades fundamentais para que a Infância cumpra sua identidade no tempo e no espaço que são próprios ao habitar da experiência humana em seu início.

Focados na competência do modelo produtivo do sistema econômico, que hoje passa a ser o índice gerador de todo o fundamento das questões relevantes de nossa humanidade, a infância e a juventude estão sendo enquadrados nessa ideologia desenvolvimentista em que a formação do ser produtor e empreendedor passam a ser as palavras de ordem que norteiam a maioria das reflexões de nosso quadro de profissionais da educação. Ora, a criança principalmente, essa representante da Infância de nossa espécie, não veio ao mundo para produzir. Ao contrário, ela traz em sua essência valores que uma vez observados e acolhidos em seu processo de desenvolvimento anunciam e comprovam a existência de dinamismos humanos que ultrapassam a mera produtividade e negam o reducionismo ao qual estamos sendo conduzidos transformando-nos em apenas seres consumidores de produtos. Estamos nos permitindo viver como apêndices de nossas máquinas e consumidores implacáveis de produtos que mais nos aprisionam do que nos libertam.

Para um mundo em profunda e acelerada transformação, pensar educação é conviver com a imprevisibilidade, o inesperado, a incerteza e a aventura, apostando na criatividade e capacidade reflexiva de nossos educadores para repensar a ESCOLA para a Infância, compreendendo as crianças como possuidores de uma cultura própria que privilegia o estar no mundo aqui e agora, um mundo sem fronteiras, sem separações e direcionamentos para o futuro.

A lei que rompeu com o período de desenvolvimento natural da infância do zero aos sete anos, a lei dos nove anos do ensino fundamental, foi imposta por um sistema que opera de cima para baixo sem diálogo reflexivo com os professores que se encontram convivendo diariamente com as crianças em salas de aula. A escuta e um olhar mais sensível sobre a situação das próprias escolas de educação infantil do nosso país, nos teria levado a um projeto de reforma educacional mais abrangente e conseqüente, envolvendo aspectos importantes tais como:

a) A reestruturação do espaço físico que definisse a presença da natureza como fundamento para o desenvolvimento saudável da infância uma vez que seu currículo básico se traduz num corpo em movimento livre para Brincar;
b) A formação de um quadro de profissionais capazes de assimilar conhecimentos sobre a Cultura da Infância, reconhecendo os conceitos de tempo e espaço próprios da criança, instrumentando-os com um repertório significativo sobre as diferentes linguagens expressivas que estão integradas no fazer da Infância, que é o Brincar;
c) A redefinição da escolaridade seriada na medida em que há uma sinergia de conhecimento repassado entre as crianças de idades diferentes, o que fomentaria o desenvolvimento de uma alfabetização social, cultural e ética mais consistente porque incorporadas através das experiências concretas de convivência entre parcerias não lineares;
d) A escola se afirmando como um espaço de convívio entre crianças e adultos, uma verdadeira comunidade de aprendizagem onde o acontecer de uma prática reflexiva liberte o professor da burocracia que hoje o oprime, transformando-o num ser criativo, pesquisador e produtor de conhecimento sobre sua própria prática.

A escola ao acompanhar os passos da sociedade em que ela se insere deverá ser o ponto de equilíbrio enquanto lugar que reflete a vida e confirma as necessidades físicas e psíquicas da criança em seu processo de desenvolvimento, em contraponto com as acelerações do mundo adulto às quais elas se encontram hoje expostas e completamente indefesas dentro de seu grupo familiar e social.

São muitos os professores insatisfeitos e é preciso ouvi-los para que se construa um diálogo sério, comprometido com reflexões fundamentadas em experiências que estão acontecendo por esse Brasil afora apesar das leis que necessitam ser repensadas.

Há um universo de conhecimentos que podem e devem gerar uma verdadeira reforma na educação brasileira se ouvidas pelas autoridades municipais, estaduais e federais. Uma reforma que não necessite de lei de obrigatoriedade para que as crianças frequentem a escola, mas ao contrário, as crianças querem ir para a escola porque ali a vida pode ser expressa por elas em sua inteireza. As crianças sabem do que elas precisam e se os professores forem treinados para ouvi-las e refletirem a partir do convívio com elas, certamente criarão juntos um espaço acolhedor da alegria e da vitalidade, dois princípios essenciais para o acontecer de uma Infância saudável e consequentemente de um ser humano mais criativo e feliz.

Referência bibliográfica
Swimme, Brian. O Universo é um Dragão Verde, Editora Cultrix, 1991.