“Eu quero, Eu posso, Eu vou”

Com determinação e intensidade, ouvimos de uma criança de cinco anos esses verbos bem ordenados, quando se dirigindo ao pai ela argumentava, com firmeza, sua vontade de ir para casa de um amigo após o termino do horário da escola.

Confundidos e perplexos diante da maneira com a qual as crianças expressam suas “Vontades”, os adultos, em sua maioria, se deparam com a dificuldade de se colocar num dialogo harmonioso que não alimente um desgaste de argumentação de ambos os lados.

Assistimos estes confrontos, que vem ocorrendo com mais frequência do que em anos anteriores, e estamos nos propondo a refletir junto com pais e educadores, a partir das observações que vamos presenciando no convívio com as crianças.

Estamos todos convivendo com transformações que operam sobre nós influências significativas, seja de forma consciente ou inconsciente, causando ora desequilíbrios, oxalá para que possam ser criados novos equilíbrios, ora nos desafiando a descobrirmos respostas, certamente mais adequadas a nossa caminhada como seres humanos em continuo processo de construção de nós mesmos.

Vivemos um momento da História Humana em que nos sentimos imersos num caldeirão de “Informações” e “comunicações”, com a certeza de que não vamos dar conta de todas elas, já que não há tempo hábil para processarmos com tranquilidade tudo que se descortina à nossa frente. O tempo vem nos pedindo quase como num sussurro intermitente, “ESCOLHAS” que nos põem em estado de alerta a todo instante.

Consequentemente esta aceleração a qual estamos todos expostos vem alterando nosso comportamento e repercutindo diretamente na qualidade de nossos relacionamentos.

As crianças, obviamente como seres sensíveis ao seu entorno, vão percebendo os descompassos dessa relação e vão buscando sobreviver em meio às transformações que vão sendo pontuadas pelas referencias adultas e nos surpreendem a cada dia com suas expressões.

Eu nunca quero ser adulto dizia espontaneamente uma criança de seis anos para seu companheiro de quatro anos que afirmava querer ser grande igual ao pai. Perguntado por que ele não queria nunca ser adulto ele rapidamente respondeu: Eu não quero ser adulto porque adulto sempre está cansado!
Estas pequenas percepções anunciam que as crianças estão antenadas sobre o que passa à sua volta e vão tirando suas conclusões rápidas e contundentes em relação à dinâmica de sua convivência com o mundo adulto.

A diminuição do número de filhos nas famílias é um fato que vem determinando a presença de uma porcentagem significativa de filhos únicos nas escolas trás novas dinâmicas de relacionamento entre as crianças e entre a criança e o adulto. Diferente da socialização natural que se estabelecia nas famílias com mais de três filhos em décadas anteriores, esta diminuição de parcerias de diferentes idades dentro das famílias acrescidas da diminuição dos espaços de convívio espontâneo entre as crianças, vem operando uma significativa transformação das interações sociais dentro da escola.

Ora, não é de hoje que “menino tem fome de menino”. Esta é uma realidade que pertence à natureza em seu processo de desenvolvimento como espécie humana. Marca de sua primeira identidade a linguagem nasce da relação com o outro e cria a vida conversável como um ponto de contato e de aprendizagens mútuas que acompanham toda a nossa trajetória humana. Sem o outro não somos nós, e a criança em sua iniciação à construção de sua identidade, mais do que ninguém, se lança em direção ao outro em busca de si mesma. A natureza as dotou de uma linguagem própria, o Brincar, linguagem que em sua essência é uma fantástica experiência de criação de vínculos. A pulsão expansiva das crianças é um fato e a necessidade de contato com outras crianças dentro de uma relação de reciprocidade, se constitui hoje uma questão pontual sobre a qual precisamos refletir dentro da família, da escola e especialmente em nossa sociedade contemporânea, onde a Infância vem sendo privada cada vez mais de seus espaços de encontro para brincar com outras crianças de diferentes idades.

Sua mãe não é minha mãe, mas a gente é irmão. Esta é uma das frases ouvidas continuamente expressando a necessidade vital das crianças de fortalecerem os laços afetivos e criar uma relação de fraternidade que hoje extrapola a consanguinidade e pede tempo e espaço para a elaboração desses contatos.

Na relação com seus pais, o ser adulto, ocorre um tipo específico de relação. O outro, o adulto, se apresenta para a criança como autoridade, aquela presença que busca discernir para a criança até onde vai o seu querer, o seu poder e sua ação, limites naturais de convivência humana. Esta relação não se constitui necessariamente numa atitude autoritária, ao contrário, a criança se espelha no adulto como uma referência afetiva que vai lhe garantir a medida adequada do encontro com o outro numa perspectiva de respeito mútuo.

Aqui podemos vislumbrar a importância dos pais como referencias. São eles que concebem e recebem o ser humano. A criança nasce completamente dependente e é através dos pais que ela começa a entrar em contato com o outro, esse outro que vai acompanhando de forma acolhedora a presença de uma pulsão expansiva que jorra como impulsos inicialmente descoordenados em busca de uma apropriação do mundo que lhe está à volta. O adulto qualquer, que seja, ao acompanhar a infância de uma criança deverá ter consciência de que ele é o elemento continente dessa pulsão expansiva que aos poucos vai sendo integrada e humanizada.

Sabemos que a partir do momento em que a criança se descobre como um ser que age sobre os objetos e sobre o outro, ela passa a querer exercer a sua força. Seu desejo é ser reconhecida como sujeito que age sobre o ambiente em que vive. Nessa conquista de espaço se dá a expansão do EU além dos seus limites corporais. Os sons emitidos sejam sob forma de gritos, choros e os gestos bravos são projeções desse “Eu existo” reverberando no espaço do mundo adulto.

A criança quer se afirmar como sujeito, assumir sua iniciativa tornando-se naturalmente impulsiva no uso de sua força. Esta força vital que chamamos ora de impulsividade, ora de agressividade, não é necessariamente uma força destrutiva, ela brota de uma tendência inata para crescer, o que é uma característica de toda a nossa própria natureza, segundo a verdade do nosso próprio ser. Encontrando obstáculos, resistência ou oposições a esta força vital seja por situações, objetos ou pessoas, a criança inicialmente reage com uma agressividade primária, fruto de sua necessidade de afirmação de sua pulsão expansiva de vida. Esta força vital definidora de espaços se encontra presente no corpo das crianças e, uma vez ativado por sensações ou sentimentos, reage instantaneamente se defendendo do ambiente que por alguma razão limitou a sua ação.

A rebeldia, os gritos, os choros as birras são sinalizações dos impedimentos recebidos, de uma energia que foi bloqueada. Esta energia pode estar bloqueada externamente ou internamente. A reação impulsiva está sempre representando um ataque ou uma defesa frente a situações onde provocações foram sentidas como desconforto, e a criança ainda não conseguiu descobrir meios de elaborar seus sentimentos de forma mais adequada. Diante de situações em que a manifestação dessa força se dá de modo inadequado, a criança se surpreende com seu próprio impulso, e ao perceber a dor do que foi atingido, também chora e verbaliza: “eu não queria bater, é uma coisa dentro de mim que quer se defender.”

Se negarmos a força vital, porque receamos seu lado negativo, corremos o risco de perder contato com a pulsão para o crescimento e independência que paradoxalmente está presente nessa mesma ação. Há tensão entre a força que nos impele para crescermos e explorarmos o mundo e a outra que afirma a necessidade de segurança para darmos os passos em direção a nossa independência. O instinto agressivo existe para a nossa necessidade de sobreviver e desenvolver nossas potencialidades. Queremos ir para frente e ficamos frustrados quando somos impedidos. Para nos tornarmos adultos independentes, nós o fazemos superando gradativamente a nossa dependência em relação a quem cuida de nós. Donald Winnicottt pediatra e psicanalista certa vez escreveu que “em sua origem, a agressividade é quase sinônimo de atividade’ é a força íntima que nos compele a nos apropriarmos do mundo externo”. A agressividade, portanto, não é mero resultado da frustação ela também tem seu lado positivo. Existe uma força profunda bem no nosso interior que gera o ímpeto para aprender novas habilidades e resolver novos conflitos. A nossa própria linguagem usa termos que definem esta força em várias situações como, vamos atacar este problema, vamos dominar nossas dificuldades, vamos lutar pela paz.

É um desafio para nós adultos convivemos com esta força vital ainda em formação na criança em seus primeiros anos. Este aspecto impulsivo, positivo e nato da natureza humana espera por adultos amadurecidos que possam ajudar as crianças com perseverança e paciência a exercitar seu movimento em direção à afirmação de sua identidade, acompanhando esta passagem com firmeza, determinação e amorosidade. O discernimento do adulto e seu papel como continente dessa força, ainda pouco elaborada pela criança, são de importância fundamental.

Na relação de reciprocidade que ocorre no universo das brincadeiras as crianças são colocadas em situações de confronto com o outro e aprendem a lidar com situações que podem gerar conflitos, mas ao mesmo tempo está sendo tecida a cada experiência de frustação a compreensão dos seus limites e dos limites do outro dentro de uma experiência concreta de relacionamento. O outro passa a ocupar o lugar de agente na formação da identidade de cada um. E assim, num movimento crescente e contínuo, as relações de respeito entre as crianças são vividas e interiorizadas gradativamente constituindo passos que vão sendo ampliados na medida em que os espaços nos quais as crianças convivem na família ou na escola propiciem experiências significativas de contato com o outro. Sua necessidade de marcar território, interagindo com a necessidade vital de se relacionar com o companheiro vai construir soluções imprevisíveis que denotam negociações de parte a parte para conquistar o espaço onde caibam dois ou três, sem os quais a brincadeira se dissolveria. Esse compartilhamento envolve a iniciação das crianças na percepção das diferenças das “vontades”, dos gostos, dos ritmos, implantando os primeiros gestos que anunciam a passagem do egocentrismo natural desse período para um movimento onde se encontram presentes os primeiros sinais de solidariedade e respeito de uma para com o outro. As escolhas das parcerias nas brincadeiras vão definindo sintonias que favorecem a harmonização das relações estabelecendo um convívio afetivo onde brotam os primeiros laços de amizade.

Esta construção da relação entre o EU e o Outro se encontra entrelaçada com a presença dessa pulsão expansiva em desenvolvimento dentro de cada criança. Nesse confronto entre o mundo do EU e o mundo do Outro a criança tece sua história através do universo das brincadeiras recurso insubstituível para uma condução saudável de seu desenvolvimento físico, emocional, mental e espiritual.

O formato das escolas que permanecem até hoje é nascido numa época em que as crianças iam à escola num determinado período do dia e no outro elas brincavam livremente com seus irmãos ou com as crianças da vizinhança. Ocupando os quintais e as ruas tranquilas elas exerciam o seu direito a um convívio rico de experiências onde as brincadeiras mediavam às relações construindo um intenso repertório de desafios, que transformados em aprendizagens, favoreciam a criação de um tecido social importante ao desenvolvimento humano. Nesse tempo e espaço de liberdade a vida se expressava em sua inteireza. A escola e o tempo livre se alternavam em equilíbrio e podemos até afirmar que a presença desse tempo livre das brincadeiras espontâneas garantia a eficiência do então sistema de educação. Eis aqui os nossos desafios como educadores nesse momento histórico para reinventar espaços e tempos onde as relações afetivas se cumpram em ambientes que permitam o exercício da descoberta do outro como parceiro da minha própria construção.

Uma humanidade fraterna, solidária e comprometida com a construção harmoniosa de seres humanos conscientes de si, do outro e do seu entorno, começa num processo de educação que deveria ter início antes mesmo do nascimento. A pergunta que se coloca hoje é o que estão querendo dizer para nós, crianças que aos cinco anos explicitam com determinação três verbos: EU QUERO, EU POSSO, EU VOU. A Vontade, o Poder e a Ação estão presentes nestes três verbos e sinalizam para nós um sujeito que está acordado e determinado a buscar um acordo com o mundo que lhe está à volta.

A Cultura da Infância ainda hoje compreendida como um setor improdutivo pelo sistema econômico e social vigente tem forçado a educação das crianças a uma rotina que desvitaliza e minimiza o potencial humano já presente nessa faixa etária. Em sua fase de maior crescimento físico e afetivo ela se encontra privada de exercer a sua língua de apropriação do mundo e grita por um espaço de liberdade que a deixe ir ao encontro dos seus pares para brincar e Crer-Ser em paz.