Passos que continuam

A racionalidade burocratizada e perversa que ameaça invadir até mesmo os recantos onde habitam os seres que não sabem viver sem espontaneidade, as crianças, me encorajou a compartilhar esta “experiência” vivida durante trinta anos na Casa Redonda, Centro de Estudos, em Carapicuíba, São Paulo.

Busco, neste momento da história da educação infantil do meu país, contribuir com esta reflexão, compartilhando com pais, educadores e outros profissionais que hoje se encontram comprometidos com a urgente tarefa de defender essa parcela significativa de nossa espécie, cuja iniciação à humanidade se realiza na relação direta com o espontâneo. O contato cotidiano com as crianças que frequentavam o espaço da Casa Redonda foi o caminho que me permitiu o encontro com a espontaneidade, passando a compreendê-la cada vez mais como a linguagem da alma, o fluir da criação contínua e imprevisível, que encontra no ato de brincar uma das expressões mais sensíveis de sua presença.

Liguei-me ao universo das brincadeiras e sobre ele me debrucei, tocada que fui pela infinita diversidade de movimentos que desfilavam sob meu olhar atento, muitas vezes surpreendida e contagiada pelo sentimento de inteireza e alegria que emanavam desse fazer humano tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexo, a conviver com outras dimensões do tempo e do espaço.

Diante das crianças brincando todas as manhãs, fui desafiada a desenvolver um olhar e uma escuta sensíveis, que me apontaram os primeiros passos de um caminho sem volta, direcionando-me para viver uma experiência de educação focada numa constante e intensa reflexão. A educação é, eminentemente, uma prática, e refletir sobre ela continuamente se tornou a ferramenta indispensável e preciosa, a ser aperfeiçoada a cada dia, para realizar o sonho de criar com as crianças e para elas um lugar no qual pudessem expressar em liberdade e segurança as singularidades de suas vidas em crescimento. Foram muitas as fontes de inspiração que me levaram a ter a coragem de deixar a escola institucionalizada, onde aprendi e realizei práticas pedagógicas importantes entre as décadas de 1960 e 1980, em Salvador e São Paulo.

O exercício constante de uma reflexão mais abrangente sobre a realidade da educação pública e privada no Brasil ampliou e fortaleceu minhas indagações, cujas raízes pertenciam a uma escola de pensamento sobre educação brasileira que fundamentava experiências importantes de educação pública, como o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, em Salvador, criada por Anísio Teixeira, reconhecida pela Unesco como modelo internacional difundido em vários países, as Escolas Vocacionais, Grupo Experimental Pluricurricular de São Paulo e outros tantos movimentos de educação voltados para alfabetização de adultos e cultura popular realizadas no final da década de 1950 e início de 1960, tão abrupta e irresponsavelmente destruídos pela ditadura.

Sou grata às experiências que vivi anteriormente, continentes das reflexões que me lançaram ao desafio de buscar respostas em outros contextos em que a aprendizagem se realizasse com sentido. Entreguei-me aos desafios e aos riscos de acreditar na possibilidade de reinventar a escola por outros caminhos que me garantissem viver o papel de professora com liberdade e criatividade, seguindo o fluxo que a vida imprime em cada um de nós quando nos aliamos à alegria de vivê-la.

Iniciei-me nessa jornada disposta a me deixar alfabetizar diretamente pelas crianças, que, brincando, se consagram à vida manifesta nelas em inteireza, aqui e agora, acreditando na beleza, na harmonia e na alegria que um espaço na natureza viabiliza como princípios geradores de uma educação que incorpore a dimensão sensível, caminho irreversível para construção de uma humanidade mais fraterna, solidária e feliz. Batizada pelas crianças como a Casa Redonda, pelo fato de ser uma construção arquitetônica circular numa grande área verde, compartilhei do entusiasmo delas ao vê-las entregues aos seus fazeres e saberes com iniciativa própria, solicitando minha presença quando necessária. Era recorrente a lembrança de um texto de Rabindranath Tagore que li ainda jovem na biblioteca de meu pai.

Esse educador indiano contava ter aberto sua escola à sombra das árvores e das glórias do céu. Para ele, quando uma criança se encontra em seu ambiente natural entre flores e pássaros cantores, pode mais facilmente expressar a oculta riqueza de seus talentos naturais e individuais. A verdadeira educação, segundo ele, não vem de fatores externos inculcados como bombas de pressão no educando, na verdade, ela deve ajudar a trazer à superfície a infinita reserva de sua sabedoria interna.

Identifiquei-me com ele e assisti dia a dia a Casa Redonda ser envolvida por um jardim onde as árvores e as flores cresciam ao som dos pássaros e vozes de crianças, que se misturavam em uma unidade harmoniosa, confirmando ser esse o lugar onde o brincar, como uma linguagem de conhecimento das crianças, se cumpria em liberdade, respondendo às minhas indagações sobre a educação da infância.

O espaço onde a Casa Redonda foi se revelando preexistia como casa, um lugar de familiaridade, no qual as crianças que ali foram chegando compreenderam, assumiram e potencializaram seu desenho, seu desígnio. Localizada num terreno circundado por uma vasta vegetação, sua construção foi implantada desde o início numa área central do terreno. Nossa existência sempre ocorre num lugar fundado pela vida que ali acontece. As crianças ressignificaram a Casa fazendo surgir a Escola. Sua arquitetura circular definiu-se como um centro articulador e sustentador de uma relação viva e vivida entre o espaço interno – o abrigo, que se expande para o espaço externo num contínuo movimento de interligação com o centro.

Não percorri esse caminho sozinha. Seria impossível chegar até aqui sem a presença e a força de um grupo de professores que apostaram nesse sonho e se deram as mãos, criando essa roda que hoje extrapola à própria experiência da Casa Redonda.

No decorrer da leitura sobre esta experiência, vocês se depararam com uma alternância constante entre uma linguagem focada numa expressão individual e coletiva, que se misturam, mas, na verdade são uma coisa só. Minha dificuldade em contar esta história como única autora é fruto da consciência de que toda história é a autobiografia de vários autores, os visíveis e os invisíveis, e que a ideia desse projeto foi captada no tempo e frutificou como uma realização coletiva, na qual o todo e as partes se combinaram em gestos de uma alegre roda dançada por crianças e adultos.

Nosso objetivo com este relato é disponibilizar nossa experiência como mais um dos infinitos sinais da existência de espaços de educação, em que educadores sensíveis estão corajosamente enfrentando os desafios de reinventar a educação infantil do nosso tempo, buscando uma ética que afirme essencialmente a vida presente em cada ser criança habitante deste planeta. A realidade com a qual nos defrontamos hoje, na qual os objetivos humanos e sociais cedem lugar às preocupações de uma economia de mercado, exige de nós educadores uma reflexão atenta e cuidadosa capaz de não nos deixar ser engolidos pelo modelo de civilização que vem demonstrando sinais de decadência e que não é o único caminho possível.

Somos seres de sentido! Somos seres capazes de sonhar.

Deixemos que a saudade do futuro nos embale em seu canto de esperança e nos conduza à alegria de compartilhar com as crianças a celebração da vida.

Estamos tratando aqui não de um método, uma técnica ou uma indagação unilateral, redutiva, menor. Estamos em busca de uma verdade mais abrangente, sendo que o entendimento se faz presente pela força da vida revelada a cada dia, em que a narrativa está sempre aquém do vivido, que é o que verdadeiramente nos importa.

Nosso olhar atento, cuidadoso e sensível à presença que se revelava diante de nós, em liberdade nos seus fazeres e brincadeiras – a criança –, nos levou à criação de registros reflexivos e documentação audiovisual, pois a cultura universal das crianças trata de uma linguagem de movimento, cor e som.

Como adultos continentes dessas preciosas revelações, criamos uma série de filmes focados em imagens do cotidiano aqui vivido, o que hoje é um acervo significativo da cultura da infância, a ser compartilhado com outros educadores. Movidos por uma reverência ao sentido que essas imagens registradas por nossos olhos nos despertaram, buscamos, por meio delas, o reconhecimento da presença de uma linguagem da alma, na multiplicidade do repertório simples e belo, através do qual as crianças se expressam em liberdade.

Nossos textos resultam do convívio com nossas indagações, ora respondidas por nossas próprias reflexões no grupo de professores, ora ampliadas por muitas leituras e conversas com outros profissionais, sendo que por vezes não conseguimos separar as nossas palavras das de outros companheiros do caminho. Por isso, pedimos compreensão se por alguma razão entremeamos nossas falas com anotações de livros e de palestras que ressoaram em nós e complementaram nossas reflexões.

Foram muitos os contatos estabelecidos nesses anos, com profissionais da educação que visitaram a Casa Redonda, nos estimulando a produzir este instrumento de reflexão hoje colocado a serviço de todos os que estão empenhados em dar voz ao que foi nomeado como sem voz: a infância.

Seguimos uma narrativa estabelecendo um diálogo simultâneo com a sequência dos filmes produzidos desde a década de 1990, pois eles são portadores de imagens que projetam com mais verdade a essência de uma cultura viva expressa em movimento. Nosso compromisso é com as crianças de todas as raças, de todos os credos, de todas as classes sociais, porque elas são a possibilidade de futuro da nossa espécie, o embrião da raça humana a ser cuidadosa e amorosamente acolhido.

Este livro apresenta o relato de educadores que, convivendo com as crianças, penetraram mais um pouco no mistério de vida que somos todos nós. Interessa-nos a criança porque nos interessa o ser humano. As crianças representam em sua essência um modo de ver o mundo e a vida fora dos parâmetros da razão instrumental do nosso tempo, que impessoaliza toda existência.

Essa capacidade de percepção da vida que a criança anuncia pertence, na verdade, a todos, independente da idade, constituindo um acervo significativo da existência humana. É ela justamente a luz que incomoda e que ameaça iluminar o sombrio e desequilibrado sistema civilizatório que estamos vivendo, excluindo, marginalizando e tentando eliminar de forma violenta outros níveis de percepção da realidade. Estão aí às crianças como último refúgio, reserva preciosa e única para um futuro em que a vida em alegria se cumpra como um direito humano. Assim nos falou Sammy Jo, índia americana da tribo Chippewa, que esteve em abril de 2011 conversando com os professores, as crianças e os pais da Casa Redonda:

“Eu sonho que todo mundo acorde da inconsciência. Eu sonho que todo mundo caia dentro do coração, e que aquilo que saia da boca seja expressão do seu coração. Eu sonho que quando a gente olhar um para o outro, a gente veja nossas semelhanças e nossas diferenças, e que a gente agradeça por essas diferenças e se lembre que somos parentes, parte de uma mesma família – a humanidade. Lembrem-se de chamar com muita doçura o nome de seus filhos. Lembrem-se de assegurar um lugar onde as crianças possam crescer no seu próprio tempo. A coisa mais poderosa que podemos ter é nosso nome. Então, quando a gente fala o nome de uma criança, a gente ajuda a despertá-la. Se você canta o nome de sua criança, você a fortalece. Cada vez que um bebê nasce, o universo inteiro celebra!”

Sim, o mundo torna a começar em cada criança que aqui chega. Cada uma delas propõe uma nova ordem em sua singularidade preciosa, movimentando constantes indagações na criação desse lugar que se disponibiliza a estar aberto à vida em suas infinitas manifestações.

[...] “É difícil defender Só com palavras, a vida Ainda mais quando ela é Esta que vê, Severina; mas se responder não pude à pergunta que fazia ela, a vida, a respondeu com sua presença viva; E não há melhor resposta que o espetáculo da vida.” João Cabral de Melo Neto

É a vida que nos ensina A encontrar cada dia O tempo sem tempo que brinda O espaço da alegria Sem o qual homem nenhum Torna-se humano um dia.

Somos poetas à solta Como diz mestre Agostinho. Cada um com seu poema Em si mesmo a caminho. Juntemo-nos a outros poemas Em rodas que se ampliem Cantando e dançando cirandas Num ritmo que anuncie: Brincar é a ordem do dia.

O direito de ser humano Na criança principia Nela em liberdade Se abriga a poesia Utopia abensonhada Que o brincar irradia Fez brotar da natureza A escola da alegria.

Peo