Brincar: uma linguagem de conhecimento

A substância do brincar é a alegria. A natureza é seu território primordial. Lydia Hortélio

O espaço da criança que brinca é o aqui, o tempo é o agora, e a sua ação é o seu eu que se manifesta através do corpo, afirmando a vontade e a liberdade de ser. Isso é o que encanta os poetas e nos contagia e alegra diante de uma criança que brinca.

Curiosamente, os primeiros sussurros de uma mãe acalentando seu filho nos braços eram chamados de “brincos”. Assim nasceram as primeiras canções de ninar em que mãe e filho embalados pelo ritmo e por uma sonoridade singela estabeleciam seus primeiros vínculos. O brincar enquanto linguagem de conhecimento é criativo e gera vínculos afetivos deixando marcas significativas na história de vida das crianças.

Nós, brasileiros, herdamos duas palavras para significar o fenômeno lúdico. Consideramos o brincar e o jogar de forma distinta, enquanto a maioria das outras línguas possui uma só palavra para significar essas duas qualidades. Essa distinção é importante de ser revelada porque traduz uma ampliação da nossa compreensão das singularidades do universo das brincadeiras e dos jogos. O discernimento dessa distinção traz significados novos para compreensão da cultura infantil e aponta o brincar como seu verbo principal. Há uma diferença essencial entre os verbos brincar e jogar. Talvez a língua portuguesa em sua forma de pensar o ser humano traga nessa distinção de palavras uma contribuição significativa para a humanidade aprofundar o que significa propriamente uma e outra. Nós brasileiros temos ainda a palavra brincar associada aos folguedos e às festas populares, cujos mestres dos brinquedos são chamados de brincadores ou brincantes. Essas conotações culturais, particularidades de determinada manifestação humana, ampliam o universo de entendimento do verbo brincar.

A espontaneidade como essência dessas manifestações populares se junta à espontaneidade presente nas brincadeiras da infância e nos faz debruçar com atenção redobrada ao brincar como elemento gerador de sentido individual e coletivo, narrativas da alma humana em que se expressa na sua verdade a índole mais profunda do ser de cada povo. O brincar é aqui focado como uma expressão que nasce no corpo e se prolonga em movimentos de “sentido”.

Nada é aleatório no repertório das brincadeiras das crianças, pois elas carregam dentro de si uma memória do passado e do futuro. Sua característica de imprevisibilidade, de imaginação, de sonho e também de inocência e alegria, aponta para uma possibilidade nova de construção do humano. O imaginário está imerso justamente no inesperado, e este não pode ser regulamentado. Aí está o grande perigo de “a pedra cair no chão”, como diz o poeta Fernando Pessoa. Ela representa justamente esse universo imprevisível, essa aventura da consciência rumo ao desconhecido, que vai se revelando a cada instante de nossas vidas e por isso é preciso muita atenção e sensibilidade. Ao brincar, a criança, o espaço e possíveis objetos da brincadeira saem de um contexto exclusivamente utilitário e incluem a presença de diferentes graus de subjetividade.

O mundo interno das crianças emprega parâmetros de uma realidade percebida por ela, que não coincidem necessariamente com as leis que regem a dimensão material do objeto externo. O caráter externo do objeto torna-se menor, quase se dissolvendo diante da vitalidade mais profunda que o objeto passa a revelar pela interação imaginativa e corporal entre a criança e seu brinquedo. Nesse justo momento, passos vão sendo dados para experiências subjetivas em níveis cada vez mais profundos, em que desaparecem as divisões entre o que está dentro e o que está fora, comunicando a experiência do ser. O brincar opera nessa unidade subjetiva, mobilizando sensações e sentimentos que se expressam através do corpo. Não há percepção gratuita – tudo o que é percebido torna-se um desafio que compromete e compõe os primeiros degraus para o desenvolvimento da consciência. E é nesse corpo em movimento que se dá o surgimento das habilidades que constroem a sobrevivência humana. O atual discurso pedagógico e psicológico, em geral, encontra-se ainda carregado de uma compreensão do brincar como meio para se atingir uma finalidade específica de aprendizagem destituindo dele seu caráter de liberdade e criatividade humana.

Qualquer atitude que identifique o brincar dentro da categoria de brinquedos pedagógicos ou material didático irá comprometer sua essência, produzindo equívocos que espelham uma postura reducionista, comprometendo a singularidade desse gesto humano. A ausência de conhecimento e mesmo de uma literatura que reconheça a existência de uma cultura da criança, contribui para as distorções a que assistimos na maioria das instituições que lidam com educação infantil. A maneira brincante de se apropriar do mundo e conhecer a si próprio não pertence ao sistema da lógica, presente na linearidade das programações elaboradas para um espaço seriado por idade cronológica. Ela pertence a uma inteligência interna, não lógica e qualquer tentativa de torna-la externa no papel e, em programas detalhados, se transforma imediatamente numa rotina vazia, sem significado expressivo e representativo, o que caracteriza hoje um grande número de ações ditas pedagógicas.

É inconcebível imaginar um espaço de educação de crianças sem a presença da natureza. Criam-se tantos movimentos pela manutenção de reservas naturais para os animais, e onde se encontra uma ação verdadeiramente comprometida com a presença da natureza como o hábitat de nossa espécie sem o qual o desenvolvimento das crianças não se cumpre em plenitude? É uma questão de cumprimento aos direitos humanos impedir que as crianças, em sua primeira infância, fiquem presas em salas de aula, amontoadas quase como presidiárias, tropeçando umas nas outras, impedidas de colocar seu corpo em movimento livre, quando há todo um desenvolvimento de integração psicofísico ocorrendo nessa etapa do crescimento humano.

O brincar nasce no corpo, e o corpo é natureza. A criança, antes de ser intelecto, é instinto, é sensação. Seus sentidos são portadores de uma sabedoria que ajuda a estruturar sua relação com o mundo. A criança evidencia a presença do pensamento corporal e sensorial como formas de interagir com o mundo e conhecê-lo. Nossos sentidos assimilam, produzem e são continentes de conhecimentos significativos da nossa existência. Lembremos, como afirma Schiller, que “o impulso sensível começa a trabalhar antes do racional porque a sensação precede a consciência; e é nessa prioridade do impulso sensível que encontramos a chave de toda a história da liberdade humana”.

Brincar na Natureza expressa um papel vital na manifestação da alegria, da espontaneidade e da capacidade criativa do ser humano ao inventar suas próprias brincadeiras, desafiando seu corpo em crescimento, criando seus vínculos nas parcerias que são construídas num espaço que permite o exercício de a criança ser criança. Esse exercício de ser criança certamente propicia a condução de uma humanidade mais saudável, consequentemente mais feliz porque mais humana, que é o que nos interessa em nosso modo de pensar a educação brasileira. Onde fica o Brasil dentro das nossas escolas? O primeiro conceito de cidadania começa pelo chão que pisamos e pelo respeito ao que nos une como povo em torno de um território onde se fala uma única língua e onde uma riqueza cultural aguarda ser conhecida e reconhecida para ser compartilhada com outras culturas. Onde se encontram nossos cantos, nossas danças, nossos mitos, nossas lendas, nossas artes e artesanatos construídos ao longo de nossa história que ultrapassa os 500 anos festejados?

Ausentes dos currículos escolares e da formação dos professores, que na verdade deveriam vir a ser portadores vivos de nossa cultura, o Brasil, rico em sua diversidade cultural, torna-se uma entidade desconhecida e desencarnada. Pobremente substituída por uma cópia desbotada do colonialismo cultural, vamos sendo transformados em uma massa informe e uniformizada, afastando de nós a possibilidade de ser o povo que somos. Temos muito que aprender com nossos índios no que diz respeito ao seu comportamento frente às crianças e na atitude como eles repassam para elas as tradições culturais e a reverência aos valores éticos e estéticos da sua comunidade.

Portanto, o grande trabalho, o maior desafio hoje é o de educar a criança, “insistindo em que educar não é levar ninguém a ser isto ou aquilo, não é tentar influir de qualquer modo em sua orientação futura, mas dar meios de expressão à sua capacidade criadora e de comunicação”, nas palavras do professor Agostinho da Silva em Educação de Portugal. Temos de cuidar para, na medida do possível, não atrapalhar nem deformar a criança, valorizando o seu brincar, a sua alegria, o seu sim à vida, defendendo sua capacidade e seu modo próprio de entender o mundo.

Convivendo num país tropical, o Brasil, onde o Sol brilha em todas as estações, onde as manhãs em geral possuem uma temperatura agradável e uma luminosidade especial, que tem influência significativa sobre o corpo físico em processo de crescimento, é nosso dever, como educadores, afirmar o compromisso com uma educação que defina a presença da natureza como peça substancial para o desenvolvimento humano. O espaço da Casa Redonda é pensado e cuidado com a compreensão de que ele é em si mesmo um ser que irá acolher crianças numa etapa de desenvolvimento na qual seus sentidos estão aflorados, e seu corpo é sua fala. Árvores floridas, árvores frutíferas, flores, borboletas, pássaros, macaquinhos, minhocas, lagartas, esquilos, horta, canteiros de terra, tanque de areia, vento, chuva, sol, arco-íris, relâmpagos, trovões, lama, ladeiras, rampas, declives, escadas, caminhos diversos permeiam esse espaço e se tornam o território onde os verbos caminhar, correr, trepar, deslizar, subir, descer, tropeçar, cair, levantar e tantas outras ações se constituem um repertório fantástico de domínio corporal.

Somente o vivido sobrevive e, nessa etapa de desenvolvimento humano, o mundo externo é o campo de experiência através do qual a alma sensível vai se alimentando dos elementos naturais, como brinquedos que lhe são dados brincar: uma variedade de cores, cheiros, texturas, formas que alimentam o acervo de suas experiências de vida vivida.

Nas palavras do escritor e filósofo grego Nikos Kazantzakis:

“A criança absorve insaciavelmente o mundo, recebe-o nas suas entranhas, assimila-o e transforma em criança. Lembro-me de ficar sentado no patamar de nossa casa; o sol brilhava, o ar ardia, e eu fechava os olhos feliz, estendia as mãos abertas e esperava. Deus surgia – e enquanto eu fui criança ele nunca me enganou – surgia sob a forma de uma criança, como eu, e deixava-me nas mãos seus brinquedos – o sol, a lua e o vento. – Ofereço-te, dizia-me, ofereço-te, brinca com eles; Eu tenho outros para mim. Abria os olhos, Deus desaparecia, mas nas minhas mãos ficavam os seus pequenos brinquedos. Quando criança unia-me em absoluto com aquilo que via e tocava; com o céu, um inseto, o mar, o vento. No meu cérebro infantil e delicado, as coisas organizavam-se magicamente, para além da lógica. Eu vivia, falava no meio de uma lenda que criava em cada instante, abrindo nelas caminhos para avançar. Verdadeiramente nada se parece tanto com o olhar de Deus como o da criança que pela primeira vez vê e cria o mundo.”

A criança e a natureza se reúnem em brincadeiras infinitas, cujos gestos refazem, resumem e integram dimensões do caminho que a humanidade veio percorrendo até então. Da mesma maneira que o desenvolvimento motor refaz todos os estágios da evolução animal em direção ao homem, o desenvolvimento da psique humana é o resumo da evolução em direção à consciência. Poderíamos dizer que o corpo humano traz em si uma lembrança viva e atuante da psique coletiva. Nesse sentido, podemos compreender a permanência das brincadeiras ao longo dos tempos como uma força de resistência humana manifestada pelas crianças de todas as épocas que brincam respondendo aos desafios inerentes ao seu desenvolvimento em comunhão com a natureza. É preciso, portanto, não impedi-las de manifestar suas raízes, usar sua memória coletiva e ter a liberdade e a vontade de recombinar essas matrizes para construção de si próprias. “O brinquedo sempre socializa mais do que uma sessão solene, e na liberdade do brinquedo se determinam inconscientemente muitas características de uma raça. Poder-se-ia escrever um livro sobre psicologia das raças estudando unicamente os brinquedos nacionais”. O registro dessa síntese preciosa que pertence a Mario de Andrade foi retirado de um artigo que não consegui acessar em minha memória, talvez pelo impacto que esse pequeno texto significou naquele momento da leitura e que me fez destacá-lo como uma peça especial para o contínuo refletir sobre a amplitude de significados presente na liberdade do ato de brincar.

É com seu corpo brincante no chão da natureza que a criança recebe e celebra a memória, ampliando e atualizando o passado. Os ensinamentos do brincar dizem respeito a algo como a memória do futuro. O brincar é uma função transcendente do humano, uma vez que extrapola a condição de tempo e espaço do cotidiano. Como afirma o geógrafo Milton Santos: “nós humanos habitamos em dois lugares; na Terra e no Infinito”. Ao brincar as crianças sabem transitar naturalmente entre esses dois lugares: vão da Terra ao Céu em poucos minutos, conversam com seres imaginários, inventam personagens, projetam mundos, inauguram espaços novos, solucionam possíveis conflitos do cotidiano através dos recursos de sua capacidade de imaginação. Brincando, são capazes até de suspender o tempo. Nas brincadeiras, as crianças representam em ato um imaginário com infinitas possibilidades de exploração, alterando a ordem estabelecida e criando outras ordens.

A imaginação se inicia na criação de imagens internas e se configura como a grande companheira da infância, uma ponte insubstituível para a construção do pensamento abstrato, permitido ao homem entrar em contato com as indagações que transcendem a mera racionalidade. Ao longo da convivência com as crianças que brincam diariamente na Casa Redonda, descobrimos suas capacidades inatas de se deslocarem e se apropriarem de diferentes espaços, adequando-os às suas possibilidades, recriando-os em função de suas brincadeiras, desenvolvendo espontânea e continuamente suas habilidades em se relacionarem e se orientarem. A contemplação pura diante de uma criança brincando é a possibilidade mais verdadeira de nos aproximarmos do mistério das brincadeiras.

Aí, nossa alma é tocada pelo pleno contato diante da presença de algo tão antigo e tão novo, algo tão simples e ao mesmo tempo tão complexo, uma ponte visível em direção ao futuro. “Verdadeiramente revolucionário é o efeito do sinal secreto do vindouro, o que fala pelo gesto infantil”, como diz Walter Benjamim, em Reflexiones sobre niños, juguetes, libros infantiles, jóvenes y educación. O caráter exploratório do brincar remonta à origem da nossa espécie.

Ao se relacionar com o meio ambiente, a criança pode chegar a níveis cada vez mais complexos de combinações. Como aprendizes natos, impõem a si próprios os desafios que querem vencer, daí a diversidade das brincadeiras, cada uma delas representando um gesto de aquisição de novos conhecimentos. Os desafios brincados, a cada dia, são acrescidos de novas modalidades, inventadas espontaneamente por uma pulsão interna de expansão dos ossos, dos músculos, das articulações, do eu-corpo, envolvendo a emoção da conquista, em que os limites e os medos são vividos e ultrapassados a cada entrega à experimentação.

Todo repertório construído a partir da espontaneidade das crianças brota da relação do mundo interno em interação com o mundo externo, sempre muito mais prazeroso do que a maioria das propostas curriculares do mundo adulto. A criança sabe do que ela precisa, e o brincar é a prática por ela criada para dar respostas às suas necessidades. A Cultura da Criança é marcada por uma contínua pulsão para o crescimento através de uma forte determinação para criação de novos desafios e novos vínculos. O contato com o outro é uma busca incessante, e é parte estrutural do brincar. Podemos observar como durante a infância a criança tem fome de outra criança, parceiro ou parceira de brincadeiras, em que experiências mútuas se constelam em busca de completude. A criança brincando nos reapresenta um sentido de unidade, em que corpo e alma estão juntos, em que cabeça e coração reagem em uníssono, podendo nos apontar qualidades da natureza humana que foram fragmentados na compulsão a qual estamos expostos, promovida por uma civilização que imprimiu ao ter uma supervalorização em relação ao ser.

Em um momento em que iniciamos uma cruzada para instituir o direito humano da criança de ser criança, e nesse sentido a criança nos interessa porque nos interessa o ser humano, que nesse século XXI tenhamos a coragem de nos deixar ser alfabetizados pela língua das crianças. Reaprendamos com elas a arte de estar no mundo entregues a uma pulsão de vida que nos conduza, antes de tudo, a ser verdadeiramente nós mesmos e que sejamos todos devolvidos à alegria de estar vivos, em comunhão fraterna e solidária com os nossos companheiros que habitam este planeta.

As crianças merecem ser reconhecidas e tratadas com a dignidade de uma obra de arte. A imagem preciosa e singular de sua humanidade precisa ser restaurada com inteligência e sensibilidade, uma vez que elas são continentes do futuro. Ela espera de nós total acolhimento, escuta sensível e responsável ao mistério da continuidade e possibilidade de cultivar na Terra a semente nova que elas trazem ao nascer.

As crianças não chegam a este mundo para brincar de viver. Para elas, brincar é viver.